Na aula anterior, você aprendeu exatamente quando e como paga o imposto devido em operações com criptoativos, tanto em corretoras nacionais quanto estrangeiras. Vimos como funciona a apuração, os códigos dos DARFs, os prazos e as diferenças entre os dois regimes.
Agora, chegou o momento de virar a chave.
Até aqui, o foco foi entender as regras, cumprir as obrigações e evitar problemas com a Receita Federal. Mas, nesta aula, você vai conhecer uma nova dimensão: como utilizar essas regras a seu favor para pagar menos imposto — ou até mesmo nada — de forma 100% legal.
Esse é o momento de entender o que é planejamento tributário no universo cripto.
A ideia central é simples: arbitragem tributária. Ou seja, identificar diferenças entre os regimes existentes (como nacional e estrangeiro) e aplicar estratégias inteligentes que respeitam a legislação, mas otimizam sua carga tributária.
Não se trata de sonegar, esconder ou adotar estruturas mirabolantes fora do país. É sobre usar as próprias regras da Receita Federal de maneira estratégica, aproveitando oportunidades que muitos investidores simplesmente ignoram por falta de informação.
Nesta aula, você vai aprender:
- Como realizar prejuízos de forma controlada para reduzir impostos
- Como aproveitar o limite de isenção das exchanges nacionais de forma eficiente
- Como combinar compensação de perdas com isenção mensal para zerar a tributação
- E até como acessar liquidez sem vender seus ativos, através de estratégias avançadas
Se preferir acompanhar com explicações visuais e exemplos práticos na tela, a versão em vídeo desta aula está disponível abaixo.
Mas se quiser seguir na versão em texto, continue a leitura. Você está prestes a descobrir como pagar menos imposto, sem risco e dentro da lei.
Colheita de Prejuízo em Corretoras Estrangeiras
Uma das estratégias mais poderosas — e menos exploradas — no planejamento tributário com cripto é a chamada “colheita de prejuízo”.
Trata-se de uma operação em que você realiza um prejuízo que, até então, era apenas teórico, com o objetivo de utilizá-lo para reduzir a carga tributária sobre lucros presentes ou futuros.
Funciona assim: imagine que você tem uma posição em uma altcoin que caiu 60% desde a sua compra. Embora esse prejuízo ainda não tenha sido efetivado, você pode vendê-la, reconhecendo o prejuízo oficialmente para fins fiscais, e em seguida comprá-la de volta — mantendo sua exposição ao ativo.
Esse processo simples — de vender e recomprar — transforma um prejuízo não realizado em um prejuízo realizado, o que permite que ele seja registrado na sua apuração anual. Esse prejuízo poderá então compensar lucros obtidos com outros ativos no mesmo ano, ou até mesmo nos anos seguintes.
É importante destacar que essa estratégia só é possível em corretoras estrangeiras. O regime tributário brasileiro para exchanges nacionais não permite a compensação de prejuízos entre meses distintos, o que inviabiliza esse tipo de planejamento no ambiente doméstico.
Por isso, se você opera em exchanges internacionais, como Binance ou KuCoin, e possui ativos com desvalorização relevante, a colheita de prejuízo pode ser uma ferramenta extremamente eficaz para reduzir — ou até eliminar — o imposto a pagar sobre lucros futuros.
3. Aproveitamento do Limite de Isenção nas Corretoras Nacionais
Outra estratégia relevante — e que muitos investidores deixam passar — é o uso recorrente da isenção de imposto para vendas de até R$ 35.000 por mês, válida para operações em corretoras brasileiras.
A legislação é clara: se o total de alienações no mês for igual ou inferior a R$ 35.000, qualquer lucro obtido é isento de imposto de renda. Isso significa que você pode vender ativos com valorização, realizar lucro e não pagar nada — desde que respeite esse limite.
Essa regra permite uma forma de “venda controlada” para quem está pensando em liquidar posições com ganho. Em vez de fazer uma venda única de grande valor, o investidor pode fracionar suas operações ao longo dos meses, sempre mantendo-se dentro do teto da isenção.
Quando houver necessidade de realizar vendas acima do limite de R$ 35.000 no mês — o que tornaria o lucro tributável — uma alternativa interessante é migrar essas operações para corretoras estrangeiras. Isso porque o regime anual de tributação do exterior permite compensar lucros e prejuízos, o que oferece mais flexibilidade para planejar a carga fiscal.
Dessa forma, a combinação entre corretoras nacionais e internacionais deixa de ser apenas uma escolha operacional e passa a ser uma ferramenta de planejamento tributário ativo.
Ao utilizar o limite de isenção nas nacionais e a compensação de prejuízos nas estrangeiras, o investidor pode estruturar uma estratégia contínua de realização de lucros com o menor impacto tributário possível.
Combinação das Estratégias: Isenção + Compensação
As duas estratégias que você viu até aqui — colheita de prejuízo em corretoras estrangeiras e aproveitamento do limite de isenção nas nacionais — ganham ainda mais força quando são combinadas de forma inteligente.
Essa combinação permite que você zere legalmente o imposto sobre lucros em cripto, mesmo operando com valores significativos ao longo do ano.
Vamos a um exemplo prático: suponha que você tem um lucro de R$ 10.000 acumulado com Bitcoin, mas também possui uma posição em uma altcoin desvalorizada, com prejuízo potencial de R$ 10.000.
Você pode realizar a venda da altcoin em uma corretora estrangeira, registrando esse prejuízo, e ao mesmo tempo, realizar parte do lucro com o BTC em uma corretora nacional, desde que as vendas fiquem abaixo dos R$ 35.000 no mês.
Na prática, você estará:
- Usando o prejuízo realizado no exterior para neutralizar o lucro excedente
- Aproveitando a isenção de até R$ 35.000 mensais nas vendas nacionais
Esse movimento entre exchanges é totalmente legal e baseado nas regras atuais da Receita Federal. Ele exige organização, controle e disciplina, mas permite que você extraia o máximo da legislação vigente — pagando menos imposto sem abrir mão da liquidez ou da rentabilidade.
Empréstimo com Garantia em Cripto
Além das estratégias fiscais diretas, existe também uma abordagem mais sofisticada que pode ser utilizada por investidores que desejam obter liquidez sem vender seus criptoativos: o empréstimo com colateral em cripto.
A ideia é simples: você utiliza seus ativos digitais como garantia em uma plataforma que oferece empréstimos, recebendo o valor em stablecoin ou até em reais, sem precisar alienar suas posições. Como não há venda, não há ganho de capital — e, portanto, não há imposto devido no momento da operação.
Essa estratégia é particularmente útil para quem acredita no potencial de valorização dos ativos no longo prazo, mas precisa de recursos no curto prazo sem querer realizar lucros (e pagar imposto).
No entanto, esse tipo de operação não é isento de riscos. Se o ativo usado como garantia sofrer uma queda expressiva de preço, a posição pode ser liquidada automaticamente pela plataforma, o que pode levar à perda parcial ou total do colateral.
Além disso, é uma estratégia que exige um bom domínio dos mecanismos de empréstimo cripto, além de tolerância a risco e controle de alavancagem. Não é recomendada para iniciantes ou para quem não está familiarizado com o funcionamento dos protocolos de empréstimo e suas regras de liquidação.
Ainda assim, se bem utilizada, pode ser uma ferramenta eficiente dentro de um planejamento financeiro mais amplo — especialmente em momentos de alta valorização dos ativos ou em situações emergenciais.
Recomendações Finais
Com esta aula, você conclui uma jornada completa sobre tributação de criptoativos no Imposto de Renda 2025. Desde os fundamentos sobre quem precisa declarar, passando pelas mudanças da Lei das Offshores, até chegar nas estratégias mais avançadas de planejamento tributário legal, você agora tem em mãos o conhecimento necessário para declarar e operar com segurança.
É importante reforçar: todas as estratégias apresentadas ao longo da série estão 100% dentro da legalidade. Não se trata de evasão, sonegação ou práticas arriscadas — trata-se de entender as regras do jogo e saber usá-las a seu favor.
A legislação brasileira oferece, sim, caminhos para reduzir a carga tributária de forma eficiente. Mas isso exige informação, organização e, muitas vezes, apoio técnico. Por isso, se você deseja contar com acompanhamento profissional para realizar sua declaração com segurança ou construir um planejamento tributário voltado ao universo cripto, a equipe da Fiscal Cripto está à sua disposição.
Essa série foi desenvolvida com o objetivo de ser um guia completo sobre IRPF e criptoativos, acessível tanto para quem está começando quanto para quem já investe com regularidade.
Ao longo das sete aulas, você aprendeu:
- Aula 1 – Quem Precisa Declarar Criptomoedas no Imposto de Renda: Entenda quem está obrigado a declarar criptoativos no IRPF 2025, quais tipos de investimento entram nessa regra e os riscos de não informar corretamente à Receita Federal.
- Aula 2 – O Que Mudou no Imposto de Renda para Criptomoedas em 2025: Com a chegada da Lei das Offshores, as regras para ativos mantidos em corretoras estrangeiras mudaram. Aprenda o que é considerado aplicação financeira no exterior e como se adaptar às novas exigências.
- Aula 3 – Como Declarar Criptoativos no Imposto de Renda: Veja o passo a passo completo para preencher a ficha de Bens e Direitos, categorizando corretamente os criptoativos, indicando a custódia e informando rendimentos mantidos fora do país.
- Aula 4 – Como Declarar Rendimentos com Criptoativos no IRPF 2025: Staking, airdrops, rendimentos passivos e recompensas: tudo isso precisa ser declarado. Descubra as duas formas de tributação aceitas pela Receita e como agir em cada caso.
- Aula 5 – Como Declarar Salários e Pagamentos Recebidos em Criptoativos no IRPF 2025: Pagamentos recebidos em cripto por serviços prestados também são tributáveis. Saiba como usar o Carnê-Leão, calcular o imposto e integrar esses valores à sua declaração anual.
- Aula 6 – Quando e Como Pagar Imposto de Renda sobre Criptomoedas: Aqui você aprendeu quando há obrigação de pagar imposto, como apurar corretamente nas corretoras nacionais e estrangeiras, qual o código do DARF e como usar prejuízos acumulados para reduzir a tributação.
Se você quer continuar aprofundando seus conhecimentos, acesse os materiais gratuitos disponíveis no site da Fiscal Cripto, inscreva-se no canal da Underblock no YouTube e acompanhe nossos conteúdos nas redes.
Nosso compromisso é com a educação fiscal no universo cripto, e com uma comunidade cada vez mais preparada para investir com responsabilidade, consciência e clareza.
Nos vemos nos próximos conteúdos.
Um forte abraço,
Vinícius Bazan